Uma em um milhão

 Depois de muito pensar, trabalhar e ouvir sobre formas de se relacionar, percebi que há as relações do tipo tênis e há as do tipo frescobol. 

Os relacionamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Já os do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa. O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. 


Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada, que indica o seu objetivo, que é o de cortar, interromper, derrotar. 


O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro. 


O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. 


Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... 

E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos... 


A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá... 


Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde. 


Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor... 


Ninguém ganha para que os dois ganhem. 

E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...

E se por acaso, o fim do jogo chegar, não é bem-vinda a sensação de vencer, mas se torna natural o “agradecer”, pelo jogo, pela vida, pela partilha e pela proposta aceita de jogar junto.


Respeitar a construção do amor, é reduzir o ego de querer mais, é fundamentar a humildade de não precisar ganhar, e cuidar do jogo do outro quando ele não conseguir ser a sua melhor versão.


Jogar frescobol é uma chance!

Talvez uma, em um milhão…

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